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Melhorias no Seguro Rural vão além de projeto de lei, apontam especialistas

Previsibilidade orçamentária é apontada como medida mais urgente para reduzir custos, ampliar a cobertura e dar estabilidade ao sistema

Redação FPA por Redação FPA
14 de julho de 2026
em Destaques, Notícias, Política Agrícola
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Evento Seguro Rural

O Projeto de Lei 2.951/2024, que reformula o Seguro Rural no Brasil, está na fase final de tramitação e pode ser votado pelo Senado Federal na primeira semana de agosto. Apesar dos avanços previstos na proposta, especialistas avaliam que a aprovação do texto deve ser acompanhada de outras medidas, como previsibilidade orçamentária, integração das políticas de gestão de riscos e desenvolvimento de produtos adequados às diferentes realidades da agropecuária brasileira.

Uma das propostas apresentadas pelo Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) é a estruturação do Seguro Rural em quatro camadas. O modelo foi detalhado nesta terça-feira (14), em Brasília, durante o evento “O Seguro Rural que o Brasil precisa”, promovido pela FGV Agro e pela Meridiana, think tank de inteligência política.

Coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro, Pedro Loyola explicou que a proposta foi elaborada a partir da análise de modelos adotados em países como Estados Unidos, Espanha e França. “Nós estamos na UTI da política agrícola. E como é que se resolve isso? Usando melhor o recurso público e criando algo que o Brasil ainda não tem: um sistema de gestão de riscos agropecuários”, afirmou.

Segundo Loyola, a divisão em camadas permitiria aproveitar melhor os recursos públicos e privados destinados à proteção da atividade agropecuária. O sistema também buscaria equilibrar as responsabilidades entre produtores, seguradoras e União, tornando o seguro mais atrativo e sustentável. O modelo seria dividido da seguinte forma:

  • Camada 1 – Prevenção: perdas de até 20% seriam consideradas parte do planejamento da atividade e ficariam sob responsabilidade do produtor, que administraria esses riscos por meio de boas práticas de manejo, tecnologias e recomendações da pesquisa agropecuária;
  • Camada 2 – Riscos transferíveis às seguradoras: compreenderia perdas entre 20% e 50%, cobertas pelo setor privado mediante a contratação de apólices de seguro;
  • Camada 3 – Solidariedade Nacional: seria destinada às perdas superiores a 50%, com apoio do Estado por meio de um fundo de solidariedade nacional;
  • Camada 4 – Fundos de Catástrofe: funcionaria como um reforço para os casos de perdas superiores a 50%, com cobertura em grande escala e eventos climáticos extremos. Esta camada contemplaria o Fundo de Catástrofe, viabilizado pelo Projeto de Lei 2.951/2024.

Loyola também observou que o atual modelo de política agrícola já considera as renegociações de dívidas como uma resposta recorrente às perdas enfrentadas pelos produtores. Segundo ele, essa estratégia pode ser de quatro a cinco vezes mais onerosa do que priorizar o Seguro Rural. “Desde 1995 até hoje, todos os anos têm alguma medida para renegociar dívida, seja regional, nacional ou uma resolução para corrigir algo que foi feito no ano anterior”, afirmou.  

Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), mudanças no modelo são positivas, mas devem considerar a diversidade da produção agropecuária brasileira e oferecer produtos adaptados às diferentes culturas, regiões e perfis de produtores. A entidade também avalia que a adesão não deve ocorrer por meio de obrigatoriedade.

“A melhor forma de convencer o produtor é com estímulos positivos, e não punitivos. Se trouxermos vantagens, como taxas diferenciadas ou algum benefício na concessão do crédito para quem contratar o seguro, certamente a adesão será muito maior do que com uma imposição de cima para baixo”, afirmou o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi.

Previsibilidade orçamentária é prioridade

A questão orçamentária também foi discutida no evento. Para o vice-presidente da Comissão de Seguros Rurais da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Fábio Damasceno, a recomposição e a previsibilidade dos recursos são as necessidades mais urgentes. Entre bloqueios, contingenciamentos e passivos de 2025, os recursos disponíveis para o PSR caíram de R$ 1,01 bilhão previstos no orçamento para R$ 473,8 milhões. 

Segundo ele, a instabilidade orçamentária representa um risco adicional para as seguradoras e pode elevar o preço das apólices destinadas aos produtores rurais. “Isso se reflete na taxa da apólice e provoca uma concentração de risco, porque o aumento da taxa leva a uma seleção justamente nas áreas mais arriscadas”, explicou. 

Por isso, ele dividiu a solução em três perspectivas temporais:

  • curto prazo: recomposição dos recursos e previsibilidade;
  • médio prazo: a aprovação e execução do projeto de lei do Seguro Rural, que viabilizaria uma espécie de colchão para o setor e impactaria também nas condições de crédito;  
  • longo prazo: trabalhar na organização das bases de dados para trazer mais tecnicidade nas decisões das seguradoras, além da unificação da gestão de risco e dos projetos, como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) Níveis de Manejo. 

Retorno dos recursos aplicados

O coordenador-geral de Risco Agropecuário do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Hugo Rodrigues, destacou que, apesar da redução da área segurada nos últimos anos, uma das estratégias para fortalecer o programa é demonstrar ao governo a eficiência dos recursos aplicados no PSR.

“Em 2024, quando foi aplicado R$ 1,07 bilhão no programa de subvenção, tivemos R$ 51 bilhões de importância assegurada. Isso significa que, na média, cada R$ 1 aplicado no PSR gerou R$ 48 de importância assegurada no campo. Talvez esse seja um bom indicador para mostrar ao governo a importância de aplicar recursos na subvenção e garantir uma safra bem segurada”, afirmou.

Rodrigues também declarou que o Ministério da Agricultura está alinhado ao conteúdo do Projeto de Lei 2.951/2024. Ele ponderou, entretanto, que a possibilidade de vetos envolve decisões de outros ministérios.

“O Ministério da Agricultura apoia fortemente a proposta. Como ministério setorial, sabemos que existem ministérios transversais que podem gerar algumas complicações. Vamos trabalhar para que não haja vetos”, concluiu.

 

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