EDITORIAL O Valor: Safra terá mais crédito, mas a queda do juro é dúvida



Deve ser anunciado no início de junho o Plano Safra 2013/14, que vai detalhar a oferta de recursos para financiar o plantio, a comercialização e os investimentos da safra deste ano. O Valor antecipou na edição de 17 de maio que o novo Plano Safra, ou Plano Agrícola e Pecuário (PAP), deve ser de R$ 135 bilhões em financiamento para a agricultura empresarial. Se o número se confirmar, o volume de recursos será 17,4% maior do que o da safra de 2012/13, de R$ 115,2 bilhões para a agricultura empresarial, que chegou a R$ 133,2 bilhões, incluindo R$ 18 bilhões para a agricultura familiar. Só o Plano Safra de 2009/10 terá crescido mais, 43%.
O setor agrícola espera que os juros cobrados no financiamento garantido pelo plano de safra voltem a cair. No ano passado, as taxas foram reduzidas em mais de um ponto percentual, recuando de 6,75% para 5,5% ao ano para os grandes produtores; de 6,25% para 5% para os médios; e de 4,5% para 4% para os pequenos. Os produtores pleiteiam que a taxa caia abaixo de 5% para grandes e médios produtores. Mas essa campanha era ensaiada antes de o Banco Central (BC) ter resolvido elevar o juro básico para enfrentar a inflação. Agora, são cada vez mais remotas as chances de os juros do financiamento da safra serem reduzidos. Do total do crédito oferecido, cerca de 80% são linhas de juros controlados e o restante de taxas livres, com funding basicamente proveniente das aplicações compulsórias de 34% dos depósitos à vista.
Espera-se que o Plano Safra dedique atenção especial à estocagem da produção, com uma linha especial para a construção de armazéns, para evitar as filas quilométricas de caminhões que se formaram nas estradas brasileiras no auge do escoamento da safra. As filas foram resultado não apenas das deficiências dos portos brasileiros, mas também da falta de armazéns. Por isso, os caminhões foram transformados em dispendiosos armazéns sobre rodas. Discute-se, porém, se os armazéns deveriam ser financiados para cada produtor em particular ou se deveriam ser construídos em locais de fácil acesso para serem compartilhados por vários agricultores.
A logística deficiente também obrigou o governo a importar milho da Argentina apesar de o Brasil estar colhendo uma das maiores safras do cereal de todos os tempos. O governo federal prometeu distribuir milho no Ceará e em Pernambuco para os pequenos criadores de gado, que estão sofrendo com uma das maiores secas dos últimos 50 anos. O governo tem milho disponível estocado em armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no interior da Bahia, a mil quilômetros do porto de Salvador. Como a fila no porto de Salvador está imensa, o governo preferiu trazer milho da Argentina, que será desembarcado diretamente no Recife e em Fortaleza. No total, serão compradas 103 mil toneladas de milho argentino, em um ano em que o Brasil deve colher 78 milhões de toneladas do produto, 7% mais que na safra passada, segundo a Conab.
Junto com o anúncio do Plano Safra deve finalmente sair do forno a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), prometida há pelo menos um ano pela presidente Dilma. A Anater será um braço de assistência técnica ao produtor rural da Embrapa, para disseminar técnicas avançadas de produção. Desde que a ideia foi lançada, o projeto foi sendo aperfeiçoado e adaptado às circunstâncias. A versão mais recente indica que a agência deverá ser o mais enxuta possível e terceirizará a equipe de assistência técnica. Mas o desenho ainda não está fechado.
Apesar de a deterioração da inflação e do encarecimento do custo do dinheiro poder frustrar algumas expectativas dos produtores agropecuários, não deverá faltar crédito. Nem poderia, pois a expectativa é que o setor agrícola vai puxar a economia neste ano e exigirá muitos recursos. A safra deste ano deve atingir a marca recorde de 184 milhões de toneladas, bem superior à de 166 milhões do ano anterior, que era projetada em 170 milhões de toneladas e foi afetada por uma forte estiagem que prejudicou principalmente a produção do Sul, notadamente de arroz e fumo.
A avaliação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) é que a agropecuária cresceu 8% apenas no primeiro trimestre sobre o último período de 2012, influindo decisivamente no esperado aumento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no período. No ano passado, a queda de 2,3% da produção agropecuária contribuiu para limitar a 0,9% o crescimento do PIB.

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