A decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex), nesta quinta-feira (28), de adiar a aplicação imediata de medidas antidumping contra o leite em pó importado da Argentina e do Uruguai provocou reação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e de representantes do setor leiteiro.
Embora o colegiado tenha reconhecido oficialmente a prática de dumping nas exportações dos dois países para o mercado brasileiro, a aplicação das medidas foi suspensa temporariamente para avaliação de possíveis impactos sobre a inflação de alimentos e efeitos diplomáticos no âmbito do Mercosul.
Para o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), a decisão amplia a insegurança enfrentada pelos produtores brasileiros.
“Não adianta reconhecer que há mais de 60% de dumping nesse leite em pó que entra no Brasil e não aplicar as tarifas antidumping. Isso está afetando diretamente a cadeia produtiva, tirando produtores da atividade e gerando prejuízos para pequenos municípios brasileiros”, afirmou.
A investigação conduzida pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), apontou margens de dumping superiores a 60%, após análise de exportadores argentinos e uruguaios. O processo foi aberto no fim de 2024 após pedido apresentado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Segundo a entidade, o leite em pó importado chega ao mercado brasileiro com preços até 53% inferiores aos praticados nos países de origem, impulsionado por subsídios, incentivos fiscais e políticas de apoio adotadas pelos governos vizinhos.
Representantes do setor afirmam que o Brasil atravessa uma das piores crises da pecuária leiteira das últimas décadas. Em estados produtores como Minas Gerais, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, produtores relatam operar no prejuízo, recebendo menos de R$ 2 por litro de leite, enquanto os custos de produção superam R$ 2,40.
O cenário tem provocado fechamento de propriedades, aumento do abate de vacas leiteiras e saída de famílias da atividade, especialmente entre pequenos e médios produtores rurais.
Para conter essa crise, Lupion também destacou o trabalho da Comissão de Agricultura (CAPADR) da Câmara e da subcomissão do leite, coordenada pela deputada Ana Paula Leão (PP-MG).
“A CNA fez um trabalho importante ao comprovar o dumping e a perda de competitividade do produtor nacional diante das importações”, disse.
A deputada Ana Paula Leão, vice-presidente da FPA para a região Sudeste, afirmou que o tema exige acompanhamento permanente do Congresso Nacional e defendeu maior debate sobre competitividade e política agrícola.
“Estamos falando de uma cadeia produtiva que sustenta milhares de famílias no campo. O debate precisa envolver competitividade, política agrícola e equilíbrio no comércio internacional”, declarou.
Segundo a parlamentar, a cadeia leiteira brasileira enfrenta um ambiente de custos elevados, com carga tributária alta, crédito mais caro e dificuldades logísticas, enquanto países vizinhos contam com mecanismos de incentivo à produção e exportação.
“Hoje o produtor brasileiro compete em condições desiguais. Enquanto aqui enfrentamos custos elevados de produção e crédito caro, países vizinhos possuem políticas de incentivo e proteção aos seus produtores. Precisamos garantir concorrência justa para quem produz no Brasil”, afirmou.
Ana Paula também afirmou que o avanço das importações tem agravado a situação econômica de produtores em diversas regiões do país.
“Muitos produtores estão desistindo da atividade. Isso representa perda de renda, produção e segurança alimentar. Então, a partir de agora, acredito que nós da Frente e as entidades parceiras vamos trabalhar pela decisão definitiva contra a concorrência desleal”, afirmou.
Lupion ressaltou ainda que a FPA aprovou recentemente uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) na Comissão de Agricultura da Câmara para investigar operações de importação do setor.
“Se o governo não pretende interromper as importações, é importante entender como essas operações estão impactando o produtor brasileiro”, afirmou o deputado.
Uma nova reunião da Camex está prevista para 25 de junho, quando poderá ocorrer nova deliberação sobre a aplicação efetiva das medidas antidumping.
Na avaliação da FPA, o reconhecimento técnico do dumping reforça a necessidade de adoção de instrumentos de defesa comercial para evitar o agravamento da crise no campo.
“Temos um lado claro: a defesa do produtor brasileiro, da segurança alimentar e da manutenção da renda de milhões de famílias que dependem da atividade leiteira no país”, concluiu Lupion.

Leia mais
Projeto que barra compra pública de leite importado pode avançar na Câmara
Importação de leite pressiona produtores brasileiros e leva FPA a pedir investigação na Câmara
Câmara avança na regulamentação do uso da palavra “leite” nos rótulos de alimentos


