A realidade da fome no mundo e a oferta de alimentos



Dilceu Sperafico*

A fome, numa visão positiva, poderia ser interpretada como demanda de alimentos, o que seria do interesse do agronegócio brasileiro, um dos principais produtores e exportadores de proteína vegetal e proteína animal do planeta.

Na prática, porém, a questão é muito mais complexa, pois para motivar a compra e consumo de alimentos, não basta sentir fome. É preciso também ter renda suficiente e haver produtos disponíveis e a preços acessíveis, em local próximo da moradia dos consumidores em potencial.

Isso significa que a fome no mundo não se deve apenas à carência de alimentos, pois decorre muito da falta de recursos de parcela considerável de consumidores e até do desperdício de comida, desde a produção até a preparação e comercialização.

Sendo assim, mesmo como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos, devemos lamentar a informação de que o número de famintos cresceu muito no mundo nos últimos três anos, até por uma questão de solidariedade com o sofrimento e a desesperança de nossos semelhantes.

Conforme relatório sobre o Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, apresentado em setembro último na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o número de pessoas que passam fome no planeta já chega a 821 milhões, entre adultos, idosos, jovens e crianças.

No Brasil, felizmente, o mesmo estudo apontou que o número de famintos pode ser considerado estável, com 2,5% da população em grave situação de insegurança alimentar. Em compensação, estão crescendo os casos de obesidade, com mais de 33 milhões de pessoas com peso acima do recomendado pela saúde pública.

Conforme os números divulgados, em 2017 mais de 5,2 milhões de brasileiros passaram um dia inteiro ou mais sem consumir nenhum tipo de alimento ao longo do ano.

No outro extremo, a obesidade já atingia 22,3% da população brasileira com mais de 18 anos de idade. No mundo, esse percentual era ainda mais preocupante, pois os obesos somavam 672 milhões de pessoas, ou uma para cada oito adultas.

As principais causas do aumento da fome no mundo seriam conflitos armados e fenômenos climáticos negativos, enquanto a obesidade refletiria a falta de educação ou conhecimento dos consumidores, tanto de baixa como de renda elevada. Esses fatores estariam no mesmo patamar já há uma década, para a preocupação de autoridades, lideranças e profissionais da saúde.

Conforme o relatório da FAO, a média mundial é de uma em cada nove pessoas passando fome e a maioria dos famintos está na Ásia, onde somam mais de 500 milhões de habitantes em grave situação de insegurança alimentar.

Em seguida, vem a África, com 29,8 milhões de pessoas passando fome. Na América Latina, esse número chega a 9,8 milhões de pessoas.

Essa situação comprova que o contingente de pessoas que passam fome no mundo cresceu nos últimos três anos, indicando a necessidade de adoção de novas medidas para erradicar a insegurança alimentar antes de 2030, conforme meta da própria instituição.

Essa, porém, não será uma tarefa fácil, pois aumentar a oferta de alimentos com qualidade, diversidade, sustentabilidade e a preços acessíveis, depende de investimentos em tecnologia e da expansão da agropecuária e a demanda de produtos oferecidos está atrelada ao emprego e à renda dos consumidores.

São esses alguns dos novos desafios do agronegócio e dos novos governantes e legisladores do País.

*O autor é deputado federal pelo Paraná licenciado e chefe da Casa Civil do Governo do Estado

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