Crítica: Faltou inspiração nos sambas-enredo de 2017



Desfile da Mangueira ano passado: escola foi a campeã de 2016 - Hermes de Paula/Arquivo

Matéria publicada no Caderno “Rioshow”, do Jornal O Globo no dia 10 de janeiro de 2017

Safra carnaval deste ano se destaca apenas pelo da Mangueira e não sustenta o bom nível de anos recentes

Na safra dos sambas-enredo de 2017 do Grupo Especial, uma pérola verde e rosa brilha mais forte. Logo na abertura do disco, “Só com a ajuda do santo”, da Estação Primeira de Mangueira, campeã do ano passado, chama a atenção pela força do refrão (“O meu tambor tem axé Mangueira / Sou filho de fé do povo de Aruanda / Nascido e criado pra vencer demanda / Batizado no altar do samba”) e pela melodia sofisticada. A bateria dialoga com as nuances da música e suas convenções vão bem além das já gastas e onipresentes “paradinhas” funk (embora também presentes). O time de compositores soube aproveitar o bom enredo, sobre religiosidade, e a escola larga bem na busca do bicampeonato.

No pelotão dos bons sambas, mas sem brilho, estão Portela, Beija-Flor, Vila Isabel e Mocidade Independente de Padre Miguel. Com “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar”, a azul e branco de Oswaldo Cruz manteve o bom nível dos últimos carnavais ao investir no que a escola sabe fazer melhor: cantar a si mesma, sua tradição e suas glórias com uma das mais belas melodias do ano.

Já a Beija-Flor aposta, em 2017, num ritmo mais cadenciado em “A Virgem dos lábios de mel — Iracema”. Se não há um refrão explosivo como no passado, a escola se beneficia por ter o samba com a letra mais bem-acabada do Grupo Especial. Não é pouca coisa.

Mocidade e Vila Isabel surpreendem após carnavais ruins. A escola da Zona Oeste vai cantar “As mil e uma noites de uma ‘Mocidade’ pra lá de Marrakech”, e a Vila, “O som da cor”, sobre as origens africanas dos ritmos do continente americano. Mais uma vez, a combinação entre Vila e África é sinônimo de sucesso.

SALGUEIRO, TIJUCA E IMPERATRIZ DECEPCIONAM

No terceiro pelotão deste carnaval, estão aqueles sambas que, na quarta-feira de cinzas, carimbarão sua passagem rumo ao esquecimento, como os da São Clemente e Paraíso do Tuiuti. No caso de Salgueiro, Imperatriz Leopoldinense e União da Ilha, a safra de 2017 decepciona e não honra a tradição das agremiações.

Mais fracos do ano, no último grupo estão a Grande Rio, vítima do mal de enredo com “Hoje é dia de Ivete”, sobre a cantora Ivete Sangalo, e a Unidos da Tijuca, com “Música na alma, inspiração de uma nação”. A escola do Morro do Borel parte de uma boa sacada — o encontro entre Pixinguinha e Louis Armstrong no Rio de Janeiro em 1957 —, mas a realização musical do enredo é desastrosa. Uma pena.

Cotação: Regular

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