Paolinelli: “Só a Agricultura Tropical poderá alimentar um planeta com quase 10 bilhões de habitantes”



O ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli lembrou em audiência na Comissão Especial do Projeto de Lei 3200/2015, que regula os defensivos agrícolas, que dos anos 1960 até os 1980 as famílias brasileiras gastavam até 48% da renda em alimentação. Ainda mais grave, segundo ele, é que, na época, a metade da população brasileira vivia no campo e, mesmo assim, esse contingente de agricultores não conseguia alimentar o Brasil. “Era o alimento mais caro do mundo. E nós importávamos feijão. Importávamos quase tudo”, afirmou Paulinelli ao frisar que sem o desenvolvimento da Agricultura Tropical o Brasil não teria revertido aquele quadro e se transformado em um dos gigantes mundiais do agronegócio.

Paolinelli, que é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), começou a explanação com uma metáfora bíblica. “O Jardim do Éden deve ficar em uma área de clima temperado, pois se fosse em uma zona tropical o pomo da discórdia não poderia ser uma maçã. ” O ex-ministro se referiu ao fato de que algumas culturas não resistem ao calor, pois em regiões mais quentes, como no Brasil, elas são muito mais suscetíveis às pragas. “Com o crescimento da população mundial, começou a exigir-se a chamada produção para atender à demanda. E a agricultura passou a ser uma atividade comercial.”

Segundo Paolinelli, nos países de clima temperado, o inverno é rigoroso e o frio desempenha um papel crucial no controle de pragas. O mesmo não acontece nas regiões tropicais. Para aumentar a produção a fim de oferecer alimentos mais baratos aos seus habitantes, o Brasil acabou tendo que desenvolver métodos eficientes de produção, estocagem e comercialização de alimentos. “O Brasil foi o país tropical que mais evoluiu em ciência, tecnologia e no aumento da produção.” Por isso, o ex-ministro sugeriu aos deputados o maior cuidado na hora de legislar sobre os defensivos fitossanitários.

Para resolver o problema da escassez de alimentos, prosseguiu Paulinelli, o Brasil, “por intermédio de um grupo de visionários, desenvolveu o setor agrícola pelo conhecimento de Agricultura Tropical. Ou nossos jovens, profissionais, professores e cientistas são capazes de promover uma solução ou estamos quebrados. A resposta foi muito rápida. Estruturou-se a Embrapa, criaram-se 17 instituições estaduais de pesquisa, desenvolveram-se as existentes e as nossas universidades foram chamadas num processo integrado e cooperativo para o país sair da arapuca em que havia se metido”.

Como consequência, em 10 anos o país deixou de ser importador e passou a exportar alimentos. Foi aí que, concluiu Paolinelli, o mundo começou a olhar para esses “tupiniquins” que aprenderam e desenvolveram uma nova forma de produção que começou a ser chamada de Agricultura Tropical, e que será a responsável por alimentar quase 10 bilhões de habitantes do planeta no ano 2050.

“Esse clima tropical nos dá a possibilidade de produzir tudo o que pensamos. Também sou contra o uso indiscriminado de produtos que nós não conhecemos. Eu também sou contra a destruição dos recursos naturais, que nós defendemos. Mas creio que a Agricultura Tropical está em plena evolução. E essa evolução não se faz somente na pesquisa de cada um, das pragas e doenças que nós temos, mas no manejo integrado, na defesa que está sendo desenvolvida especialmente na Embrapa e em nossas universidades. Esses processos integrados estão, inclusive, propiciando até a diminuição de produtos químicos. O mundo está evoluindo e o Brasil é líder nesse processo”, finalizou Paolinelli.

A Comissão Especial do PL 3200/2015 é presidida pela deputada Tereza Cristina (PSB-MS) e relatada pelo deputado Luiz Nishimori (PR-PR), ambos integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

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