Semeando a ignorância



Se as sementes transgênicas são mais caras, é porque reduzem outros custos da produção e porque aumentam a produtividade

O procurador federal Anselmo Henrique Cordeiro Lopes tentou responder nesta seção a meu texto “Pragas ideológicas” (“Mercado”, 12/10). Fosse um cidadão comum, usando sua liberdade legítima de discordar, eu não teria senão que respeitá-la, embora divergindo. Mas não é.

Trata-se de agente público que, no exercício de suas funções, não tem o direito de usar sua posição institucional para expressar opiniões pessoais. Opiniões que refletem desconhecimento da matéria e arraigado preconceito de natureza política que culmina com inequívoca agressão à honra de uma cidadã, senadora da República, que externou respeitosamente o seu ponto de vista.

Sementes transgênicas são objeto de legislação minuciosa. Dependem de autorização para comercialização, após análise científica conduzida pelos ministérios responsáveis e aprovação da CTNBio, colegiado de cientistas do Ministério de Ciência e Tecnologia.

A análise não é política, como faz crer o procurador. Abrir as portas dos laboratórios para a política, seja ela ambientalista ou nacionalista, é cultivar o absurdo.

Mas o que parece preocupar mais o procurador é que as empresas produtoras de sementes são internacionais. Fossem produzidas por brasileiros, os direitos da população estariam protegidos? É difícil imaginar um raciocínio mais tosco e primário.

Alguém imagina o Brasil proibir remédios contra o câncer porque são produzidos por laboratórios internacionais? Tudo me parece tão estranho e despropositado que não ouso fazer afirmações; apenas deixo a pergunta.

O procurador também afirma que sementes transgênicas tornam a produção brasileira dependente das multinacionais. Ora, ciência e tecnologia devem ser buscadas em qualquer parte do mundo, sem restrição de fronteiras. Essa abertura é uma das condições para que sejamos líderes na produção de alimentos.

É inacreditável que alguém ainda ignore os benefícios do comércio internacional, da integração das cadeias de produção, das pesquisas em rede e que pregue o uso de insumos nacionais apenas.

Finalmente, ele alega que o uso de sementes transgênicas gera aumento de custos, prejudicando pequenos agricultores. Dois absurdos. Se as sementes são mais caras, é porque reduzem outros custos da produção. E são mais caras porque aumentam a produtividade.

Não houvesse vantagem, nenhum produtor as usaria. E pequenos agricultores, também eles as usam majoritariamente, salvo aqueles que ainda praticam a agricultura tradicional, de baixo rendimento.

O procurador deseja que toda a agricultura brasileira retroceda no tempo, voltando à cultura de subsistência? Não é o desejo da sociedade.

A verdade é que, para compreender nossa sociedade, é preciso mais do que ensina o bacharelismo. É imprescindível a vivência dos problemas da agricultura tropical.

Por fim, quanto à acusação de que vou continuar defendendo os interesses das empresas estrangeiras, ela é grave e constitui claramente um crime. Não se espera que procuradores cometam crimes, mas que, ao contrário, combatam os crimes. Mas esse é um capítulo que deverá transcorrer na esfera da Justiça.

KÁTIA ABREU, 51, é senadora (PMDB-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)

(Folha de São Paulo – 05/11/2013)

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