Agropecuária vai ainda melhor, obrigado!



Por Rui Prado*

As perspectivas não parecem boas. Dólar em alta, instabilidade econômica nacional, demora na liberação de crédito, supersafra norte-americana, parlamentares colocando em xeque a Lei Kandir… O cenário para o agronegócio brasileiro inspira cautela. Entretanto, nada disso pode dar lugar ao ceticismo ou ser motivo para desânimo. Isso porque, ao mesmo tempo, nunca foi tão evidente a importância do setor para economia do país. Enquanto os demais apresentaram queda, foi o único a obter crescimento – de 4,7% – no primeiro trimestre deste ano. E as projeções demonstram que tudo tende a se manter bem, ou ainda melhor.

Para se ter uma ideia, o valor bruto da produção agropecuária de Mato Grosso, que significa toda riqueza gerada dentro das propriedades quanto aos dez principais produtos locais, cresceu mais de 100% nos últimos cinco anos. Saltou de R$ 21,4 bilhões, em 2010, para R$ 45,3 bilhões, neste ano, tendo a soja como seu carro-chefe, com 50,7% do montante. Os números são do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, o Imea, um dos braços do Sistema Famato/Senar.

Outra importante informação, desvendada pelo estudo “O mito da produção agrícola de baixo valor agregado”, de Antônio da Luz, economista chefe do Sistema Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), desmistifica que a atividade agropecuária precisa ser suplantada pelo avanço da industrialização. A pesquisa revela que a cada R$ 1,00 produzido pelo setor no Brasil, gera-se R$ 0,57 de valor agregado. A indústria, largamente anunciada como atividade imprescindível à geração de desenvolvimento e riquezas a um país, agrega R$ 0,33 ao mesmo real produzido no Brasil.

O economista destaca a necessidade de a agropecuária ser encarada pela sociedade como um importante setor para o crescimento econômico brasileiro, e não como a atividade que deva ser superada.

Longe de mim defender que o Estado não receba indústrias, desmobilize-se para sua vinda. Não é isso o que quero demonstrar. Por outro lado, destaco a importância de as duas atividades coexistirem em Mato Grosso, o que depende, necessariamente, de políticas públicas para o efetivo incentivo. Ao contrário da proposta, por exemplo, de querer taxar a produção agrícola enviada à exportação – o que pode vir a quebrar o setor –, adotar medidas para que os parques industriais se instalem próximos às lavouras e aos pastos, e os produtos possam ser ali beneficiados, transformados em mais riqueza agregada para a região parece-me muito mais salutar. Sem contar que isso encurta distâncias e elimina altas despesas com frete sobre as combalidas estradas existentes no Estado e no país.

O Brasil enfrenta uma crise, o que se traduz em perigo, mas, sobretudo, em oportunidade para se virar o jogo. Isso já aconteceu antes quanto à agricultura, que na safra de 2004/05 (anterior ao movimento Grito do Ipiranga) tinha 530 mil hectares (9%) de área plantada em Mato Grosso, elevada a 1,23 milhão de hectares no período de 2009/10, ou seja, mais que o dobro do tamanho (20%). E a produção de grãos vem crescendo sobre pastagens, ou seja, áreas já abertas, sem a necessidade de mais derrubadas – mais de 60% do território do Estado são preservados.

É olhando para as oportunidades, sinalizadas pela agropecuária, que o país precisa caminhar, pois se trata de um setor que demonstra maior conforto quanto à estabilidade econômica em relação aos demais e, ainda, oferece um enorme campo de trabalho para quem busca qualificação. Mato Grosso, que dispõe de um dos mais modernos parques de máquinas agrícolas em suas lavouras, carece de operadores preparados para tal trabalho, mesmo com boa remuneração.

Sendo assim, graças ao esforço de uma classe altamente engajada e que faz seu dever de casa muito bem, reforço que a agropecuária está no caminho certo e merece ser valorizada ainda mais neste país, pois traz consigo a chance de verdadeira transformação.

*Rui Prado é produtor rural e presidente do Sistema Famato/Senar.

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