A integração entre crédito, seguro rural e gestão de riscos precisa estar no centro da construção de uma política capaz de dar segurança ao produtor e sustentabilidade ao financiamento do agro brasileiro. A avaliação marcou o encontro “Crédito, seguro e resiliência no campo: construindo os próximos 20 anos”, realizado nesta quinta-feira (3), durante a Expointer 2026, na Casa do Cooperativismo do Sistema Ocergs, em Esteio (RS).
Promovido pelo Instituto Pensar Agro (IPA), o debate reuniu parlamentares, autoridades e especialistas dos setores público, financeiro, securitário e cooperativista. Ao longo dos dois painéis, houve convergência sobre a necessidade de superar o atual modelo, no qual crédito e seguro ainda são tratados como instrumentos separados.
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), destacou que o Congresso Nacional tem avançado na construção de alternativas para modernizar o sistema de proteção da produção rural.
Segundo Lupion, o desafio é estruturar uma modalidade de seguro agrícola compatível com a dimensão e a importância da produção brasileira, reduzindo a dependência de medidas emergenciais sempre que eventos climáticos provocam perdas generalizadas.
Em mensagem exibida durante o encontro, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) defendeu um modelo que proteja o produtor não apenas contra eventos climáticos, mas também diante da perda de renda. A parlamentar apontou ainda a necessidade de um fundo de catástrofe formado por recursos da União, dos estados e dos próprios produtores.
A presidente executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e presidente do IPA, Tânia Zanella, ressaltou que os eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos, especialmente no Rio Grande do Sul, demonstraram que a gestão de risco passou a ser uma condição para a permanência do produtor na atividade.
A CEO da Meridiana, Mônica Sodré, apontou três pontos considerados fundamentais na implementação e regulamentação do novo marco do seguro rural: a criação do fundo de cobertura suplementar, a integração efetiva entre crédito e seguro e a implantação de uma infraestrutura nacional de dados.
“O Brasil hoje já opera numa lógica socorrista e imediatista. O que a gente precisa mudar é para uma lógica de previsibilidade que garanta também previsibilidade ao produtor”, afirmou.

Crédito rural precisa acompanhar transformação do agro
No painel “O agro mudou. O crédito mudou?”, o representante do Banco Central Cláudio Filgueiras defendeu uma recalibragem das fontes de financiamento do crédito rural e uma revisão da proporção dos recursos públicos destinados à equalização das taxas de juros e à subvenção do seguro.
Filgueiras lembrou que o Brasil destina atualmente entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões por safra à equalização de juros, enquanto aproximadamente R$ 1 bilhão é aplicado no seguro rural. Para ele, situações como a enfrentada pelo Rio Grande do Sul mostram que, em cenários de perdas expressivas, o seguro pode ser mais determinante para a sobrevivência econômica do produtor do que a contratação de novo crédito.
O representante do Banco Central também ressaltou que o atual nível de endividamento do setor não será solucionado apenas com a oferta de novas operações de financiamento.
Manoel Queiroz, da MAPA Capital, observou que a necessidade de financiamento da agropecuária brasileira supera várias vezes o volume disponibilizado pelo Plano Safra. Segundo ele, a agricultura empresarial dependerá cada vez mais da entrada de capital privado.
Para Queiroz, a aplicação de recursos públicos na subvenção do seguro pode apresentar maior eficiência do que a própria subvenção do crédito. O especialista também ressaltou a necessidade de melhorar a gestão financeira, a governança e a capacidade de gerenciamento de risco dos produtores para ampliar o acesso ao mercado de capitais.
Nesse processo, destacou o papel estratégico das cooperativas na conexão dos médios e pequenos produtores com novas fontes de financiamento.
Seguro rural precisa ganhar escala
No painel “O seguro que o Brasil precisará em 2045”, Vitor Ozaki, da Picsel, apresentou a evolução do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).
O programa alcançou aproximadamente 214 mil apólices em 2021, quando recebeu orçamento de R$ 1,2 bilhão. Em 2025, o número caiu para cerca de 61 mil apólices, após uma redução expressiva dos recursos disponíveis para a política.
Ozaki destacou pontos do PL 2951 considerados fundamentais para recuperar a previsibilidade do sistema, entre eles a garantia da execução dos recursos orçamentários dentro do próprio exercício, a modernização da governança do fundo de amparo e o reconhecimento do seguro como instrumento de garantia das operações de crédito.
Cátia Rucco, da Swiss Re Corporate Solutions, defendeu que o seguro passe a integrar diretamente a análise para concessão de crédito. Na avaliação dela, produtores segurados poderiam ter tratamento diferenciado em critérios como taxas e prazos.
Rucco também apontou a necessidade de desenvolver no Brasil uma proteção em diferentes camadas contra riscos sistêmicos, combinando participação do mercado segurador e ressegurador, da União e do mercado de capitais.
Gláucio Toyama, do IRB(Re), chamou atenção para a diferença de escala entre o mercado brasileiro e os principais mercados internacionais de seguro agrícola. Enquanto o Brasil movimenta cerca de US$ 200 milhões em prêmios, países como Estados Unidos e China possuem mercados na casa das dezenas de bilhões de dólares.
Segundo Toyama, a falta de previsibilidade da subvenção pode comprometer inclusive a estrutura técnica desenvolvida pelo setor segurador brasileiro nas últimas duas décadas.
Rio Grande do Sul expõe urgência de novo modelo
O secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, Márcio Madalena, afirmou que a situação enfrentada pelos produtores gaúchos é uma demonstração concreta dos efeitos provocados pela combinação entre endividamento e baixa cobertura do seguro rural.
Madalena também defendeu maior participação do mercado de capitais no financiamento da produção.
O deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), coordenador institucional da FPA, apresentou três pilares da proposta construída em conjunto com a senadora Tereza Cristina e a Frente Parlamentar da Agropecuária: uma plataforma de informações sobre o produtor inspirada no modelo de cadastro positivo, a ampliação do financiamento por meio de instrumentos do mercado de capitais e um novo sistema de seguro sustentado por um fundo abastecido por diferentes fontes.
Para Alceu Moreira, a construção de um novo modelo de financiamento também precisa considerar gargalos estruturais que interferem diretamente na competitividade do agro brasileiro, entre eles logística e custo do capital.
Ao final do encontro, o vice-presidente da Federarroz, Luiz Carlos Machado, entregou ao deputado uma moção aprovada pela Câmara Setorial do Arroz solicitando o desbloqueio dos recursos destinados à subvenção do seguro rural.
O encontro foi realizado pelo Instituto Pensar Agro, com apoio da Meridiana, do Simers e do Sistema Ocergs.



