Aldeias doentes



Os mais de 15 mil xavantes do Brasil se espalham por uma dezena de terras indígenas em Mato Grosso. A etnia ficou famosa nos anos 1940 como a primeira a ser “pacificada” no Centro-Oeste e hoje se destaca por uma triste estatística: a cada três dias morre uma de suas crianças, em geral por diarreia.

Foram 116 mortes até os cinco anos de idade em 2014. Isso representa 15% do total de óbitos indígenas nessa faixa etária no país (785); nenhum outro povo teve tantos.

Na origem das mortes está a falta de saneamento e de pronto atendimento (diarreias, afinal, são tratáveis). Banheiros são raros, e a água de beber acaba contaminada.

A situação nas aldeias da terra Sangradouro, contudo, é diversa. Desde 1957, com a chegada de uma missão de padres salesianos, esses xavantes contam com algum atendimento de saúde.

Morrem menos crianças por diarreia em Sangradouro, mas suas aldeias sofrem com uma doença de adultos típica das cidades, que quase não se vê nas localidades mais distantes: diabetes. A prevalência ali chega a 28,2%. Na população brasileira, é de 7,6%.

A epidemia tem relação direta com a proximidade de áreas urbanas, a distribuição de cestas básicas com doces antes ausentes da alimentação tradicional e dinheiro –de Bolsa Família e aposentadorias– para comprar refrigerantes e biscoitos. Com o consumo de açúcar, veio também o diabetes tipo 2 e suas sequelas, como a amputação de membros inferiores.

O caso dos xavantes ilustra bem o desafio de prover assistência de saúde aos mais de 700 mil índios do país, acometidos não só pelas moléstias da pobreza rural como também as do desenvolvimento.

Para dificultar a tarefa, muitos vivem em comunidades pequenas e isoladas. A maioria na Amazônia, não raro acessíveis só de barco (existem 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas para dar conta de tamanho pesadelo logístico).

Não bastasse isso, as repartições federais que cuidam da saúde indígena padecem dos males ancestrais do Estado brasileiro: ineficiência e corrupção. Esta corroeu o serviço antes prestado pela Funasa, substituída em 2010 pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde.

Os protestos indígenas continuam. A Sesai pretende terceirizar o atendimento criando um terceiro órgão, privado, o Instituto Nacional de Saúde Indígena, para contornar amarras do setor público.

Pode ser uma saída. O projeto nem foi oficializado, porém, e já sofre oposição de ONGs indígenas e do Ministério Público Federal. As crianças e os diabéticos xavantes vão ter de esperar um pouco mais.

Fonte: Editorial Folha

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