Agronegócio do lado do sol



Mesmo com a ocorrência de eventos climáticos negativos (falta ou excesso de chuvas) em varias regiões, a safra de verão será bastante boa. A última estimativa da Conab, de 15 de fevereiro passado, ajustada pela MB Agro, projeta uma produção de 142 milhões de toneladas, aproximadamente 3% maior do que o ano passado.

O setor de carnes passa por um bom momento, especialmente, na área de carne bovina; aí, verificamos um aumento persistente na demanda internacional, a qual deverá ser reforçada por maiores importações da China. No mercado interno, o consumo per capita cresceu mais de 10% entre 2012 e 2014, o que resulta na sustentação de bons preços para a cadeia como um todo, na verdade os melhores dos últimos anos. Ademais, a pecuária de corte vem mostrando uma melhoria persistente na produtividade, dos pastos e do rebanho, fruto de importantes investimentos em tecnologia e manejo.

Na área de cana temos algumas notícias positivas decorrentes da recriação do imposto ambiental (Cide) e da elevação da mistura de etanol na gasolina para 27%. Finalmente, anuncia-se a retomada de leilões de bioeletricidade. Com isso, as perspectivas do setor sucroalcooleiro são as melhores dos últimos anos.

As outras atividades também mostram desempenho bastante razoável. A safra de café é pelo menos igual à do ano passado e, embora os preços tenham caído recentemente, eles são muito melhores do que aqueles de algum tempo atrás. A produção florestal continua se elevando. Algumas atividades vêm sofrendo com problemas na oferta decorrentes de doenças ou das dificuldades climáticas, como é o caso do próprio café, dos hortigranjeiros e da laranja, que, ainda assim, mostrará uma importante elevação na produção de suco na safra 14/15, de mais de 30%. A única cultura relevante com redução na área cultivada (11%) é o algodão. Entretanto, mesmo neste caso, a evolução da cultura está tão boa que é provável que a produção nem sequer caia.

Entretanto, considerada como um todo, a agropecuária deverá apresentar um crescimento próximo a 3% no seu PIB. Este é o único resultado positivo, junto com a esperada elevação da produção de petróleo, na nossa projeção de crescimento para este ano. Observe-se que, ao contrário da agropecuária, a cadeia do petróleo está sofrendo terrivelmente com a situação da Petrobrás. Na mesma direção, projetamos uma significativa queda nas atividades industriais e de construção, e uma estabilidade no setor de serviços. No final, o PIB de 2015 deverá se contrair, e de fato a agropecuária é o único setor relevante da economia brasileira a estar do lado do sol e a crescer.

Além da mencionada evolução da produção, os preços em reais para os produtos agrícolas estão em patamares bem decentes, especialmente tendo em vista as expressivas quedas nas cotações internacionais dos últimos meses. Os preços em dólares de soja e algodão caíram algo como 30%, enquanto os do milho e suco de laranja contraíram aproximadamente 20%.

Obviamente, estamos mencionando o impacto positivo para o setor da forte desvalorização recente do real ante o dólar. Em reais, os preços do mercado nacional são, atualmente, maiores que no início de março do ano passado nos casos do arroz, frango, boi gordo e suíno. Os preços do açúcar e do café são praticamente os mesmos, enquanto milho e soja mostram cotações 10% menores. Algodão e trigo caem mais de 20%.

Como a produção será maior, José Garcia Gasques, do Ministério da Agricultura, calcula o Valor Bruto da Produção, semelhante ao do ano passado, resultado muito positivo quando comparado com a crise do resto da economia.

Alguns poderiam argumentar que os custos também sobem com a desvalorização do real. Embora isso seja verdade, o é apenas em parte. Isso porque, com a queda do petróleo, alguns preços caíram no mercado internacional, notadamente fretes e fertilizantes nitrogenados. Desde setembro, o Índice de Fretes do Báltico, o indicador mais utilizado para cargas secas, recuou nada menos que 50%! Ureia caiu 20% e nafta, que influencia a cadeia do plástico, mais que 60%.

Mesmo que nem tudo seja repassado aos preços em reais, o efeito positivo sobre as margens é inequívoco. Ademais, muitos custos do setor agrícola são fixados em reais e não respondem diretamente às variações da cotação do dólar. Falo aqui de salários, aluguéis indexados ao IGPM, etc. Outros custos, como fretes rodoviários, até caíram, como revelou a recente greve dos caminhoneiros.

O resultado inequívoco é que, em geral, as margens no setor se mantiveram e, dependendo do dólar, até podem se elevar. Lembremo-nos que o setor comprou seus insumos de maio a setembro com um dólar na faixa de R$ 2,30 e vai vender seus produtos na faixa de R$ 3,00.

Isso não quer dizer, entretanto, que não existam dificuldades de diversas ordens: as limitações de infraestrutura se mantêm, muitos serviços públicos (como defesa sanitária e abertura de mercados) deixam a desejar e outros.

Uma visão mais geral mostra, sem dúvida, que o agronegócio é fundamentalmente beneficiado pela desvalorização de nossa moeda. Isso decorre do fato de que falamos de um segmento competitivo e aberto ao resto do mundo e que tem na inovação tecnológica e na melhoria de produtividade o centro de seu modelo de negócios.

Essa é uma lição que seria muito útil para outros segmentos da economia brasileira, especialmente a indústria.

Na elaboração deste artigo abusei da paciência e da competência da equipe da MB Agro, em particular a de Ana Laura Menegatti, a quem agradeço.

Artigo de José Roberto Mendonça de Barros publicado no Jornal Estado de São Paulo (09/02/2015)

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