Soja: de olho na China



A China tem uma grande importância no mercado de commodities.  Na safra 2013/2014 consumiu mais de 80 milhões de toneladas, em 2014/2015 deve consumir acima de 86 milhões de toneladas, é o principal importador de soja do Brasil; como sua produção está estagnada há 10 anos, a China tem impulsionado a produção mundial de soja, afinal um país com mais de 1,3 bilhão de pessoas e crescendo seu consumo acima de 7% ao ano tem sua importância, mas isto também traz preocupações.

A china importa 70% de toda a soja em grãos exportada, esta dependência de um consumidor só gera incertezas. Mas da mesma forma a China também tem sua preocupação com o fornecimento e com os preços, os chineses não se conformam do mercado de soja ser formado na bolsa de Chicago, por isto foram inúmeras tentativas do gigante asiático em romper esta dependência do mercado ser ditado por outro gigante que é o EUA.

A China tem buscado ter referências de preços dos produtos que importa da sua própria bolsa, uma prova disto é que 25% de toda a comercialização mundial de óleo passa pela Bolsa de Commodities de Dalian, a principal bolsa de futuros deste gigante asiático. A China vê Dalian como um instrumento necessário para aumentar sua influência na formação das cotações internacionais, em especial da soja, e fazer negócios em sua própria moeda.

Tive a oportunidade de ir à China por diversas ocasiões. Em uma destas viagens foi para participar da 6ª Conferência Internacional de Óleos e Oleaginosas, que aconteceu em Guangzhou. E durante estas viagens pude constatar a evolução das cidades chinesas e o crescente processo de urbanização do meio rural. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana.

O incremento na renda da população nas cidades tem gerado um aumento na demanda por habitações, uma vez que é inevitável controlar o ‘sonho’ do camponês em mudar-se para a cidade e ter acesso a bens de consumo e alimentos de melhor qualidade. A consequência é um boom na construção civil no país.

O maior poder aquisitivo dos cidadãos também se reflete no aumento das importações de soja, pois com mais dinheiro as pessoas comem melhor e a soja é a base para a produção de farelo e ração que alimenta animais de abate (frango, suíno e peixe), lembrando que a China é o maior produtor de suínos do mundo, 50% do suíno mundial é Chinês, é também o maior produtor de peixes a principal carne consumida no mundo.

O PIB da China até 2011 cresceu acima dos 10% A.A. este crescimento revolucionou o mercado, afinal a China começou a importar diversos produtos fazendo com que também diversos países crescessem, mas este crescimento tem diminuído para a faixa dos 7% A.A. o que não é pouco mas gera preocupações.  Diversos economistas chineses e estrangeiros destacam que o país vai continuar crescendo. Os motores da economia chinesa são principalmente: investimento, consumo e exportação.

A China tem se consolidado como o principal comprador e vendedor do Brasil, em 2014 importou U$ 40,6 bilhões e exportou U$ 37,3 bilhões, apesar do crescimento das importações de produtos brasileiros ter reduzido nos últimos dois anos, afinal vinha em um ritmo acelerado. Apesar de ser inimaginável  a China deixar de comprar soja do Brasil; mas a questão é outra, a demanda chinesa continuará crescendo? Afinal o Brasil a cada ano tem aumentado sua produção imaginando que o gigante asiático irá consumir mais o que é muito temerário, o resultado estamos vendo agora com a baixa nos preços pelo aumento da oferta de soja no mercado mundial.

A realidade do mercado é que na safra de 2013/14 o mundo produziu 283,7 milhões de toneladas de soja, em 2014/15 a expectativa é que seja 315,1 milhões de toneladas, um crescimento de 11%, os estoques crescem de 66, milhões de toneladas para 89,3 milhões de toneladas um crescimento de 34,7% em apenas um ano, em contrapartida o consumo mundial cresceu apenas 5,7%, o que não é pouco, mas o Brasil segue crescendo sua área acelerado 26% de aumento em 3 anos, o Chinês não consegue demandar todo este aumento.

Ficou claro que apesar da economia Chinesa ser uma locomotiva, ela tende a desacelerar um pouco, para evitar descarrilar, mas o trem bala chinês não vai parar. Vai seguir mais lentamente em uma velocidade segura, resta aos produtores brasileiros ajustarem o crescimento da área agrícola de forma mais sustentável no médio e longo prazo, se é que isto é possível já que a qualquer ano de preços melhores vemos o efeito manada de aumento de área, e com isto os preços caem, a produtividade cai e o lucro some.

Glauber Silveira é presidente da Câmara setorial da soja e ex-presidente da Aprosoja Brasil

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