Produtor brasileiro, considere-se culpado



Apesar de a soja ser a principal proteína vegetal do planeta e ser a principal cultura no Brasil, ocupando apenas 3,5% da área do território do país, não importa, se é soja brasileira é culpada. E digo isso porque mais uma vez vemos um “estudo” de uma ONG, agora da WWF, de título “Crescimento da Soja: Impactos e soluções”. É claro que o relatório tem pontos positivos, apesar de conter mais radicalismo que contribuições práticas. Um exemplo disto começa por um dos temas do estudo: “os passos em direção à soja responsável”, como se a soja brasileira fosse irresponsável.

Os produtores brasileiros são cobrados a participar e aderir a RTRS (Mesa redonda da soja responsável), da qual a Aprosoja participou, mas se viu obrigada a se retirar, pois o acordado é que os quesitos da dita soja “responsável” seriam feitos por um grupo técnico. Mas intransigentemente e de forma antidemocrática, esta mesma ONG, a WWF, levou a votação pela diretoria, exigências radicais como o desmatamento zero, que nós não podíamos aceitar. Neste ponto a lei brasileira não vale? Afinal permite desmatamento de um percentual da propriedade, o que é justo aos países em desenvolvimento, já que os ditos desenvolvidos não têm mais o que desmatar.

Em virtude deste radicalismo da própria WWF, a Aprosoja se retirou, não podia concordar com a existência de regras punitivas impostas apenas aos produtores brasileiros. Somos penalizados e as ONGs justificam que isto é devido as nossas leis. Estranho que para este caso a lei brasileira vale, no item desmatamento não. E além do mais, as leis ambientais brasileiras foram elaboradas por ONGs europeias, para atender o interesse deles que já desmataram todo o seu país, não aceitamos, o que nós concordamos são com regras que sejam mundiais.

A Aprosoja não se retirou meramente, fez mais, algo que realmente contribui com o meio ambiente, lançou em parceria com a Abiove o programa Soja Plus, voltado para a gestão, economia social e ambiental da soja brasileira, programa este que tem feito uma verdadeira revolução no campo. Primeiro porque orienta, dá a oportunidade a todos se adequarem, além de valorizar o que o produtor brasileiro faz de certo como coleta de embalagens de defensivos, plantio direto, manejo integrado de pragas, reserva legal, APP (área de preservação permanente) e etc. E o principal, o Soja Plus é incluente e não excludente.

Vejam a discrepância do RTRS, se um produtor de soja tem 30% de reserva legal, ou seja de com mata nativa em sua propriedade, e a lei brasileira diz que a reserva deve ser 35%, a soja deste produtor é irresponsável, mas a soja de um produtor na Argentina que planta em 100% de sua área é responsável, pois a lei permite. Por isso discordamos deste termo “responsabilidade”, afinal em se tratando de meio ambiente a regra deve ser universal, ou seja, a reserva florestal deve ser mundial. Mas isso eles não aceitam, quero ver reflorestarem pelo menos 20% da Europa ou 80%, já que era floresta.

Achei o estudo sofrível, com um discurso ultrapassado, sugerindo o que já se faz e com pouca contribuição prática. Vejam com relação ao desmatamento da Amazônia, já está mais que provado que a soja brasileira não ocupa a Amazônia. O estudo diz que a soja ameaça o cerrado, como pode ameaçar se a legislação brasileira estabelece uma reserva legal de 35% em área de cerrado para os estados que se encontram na Amazônia Legal e de 20% nos demais, além dos parques e reservas indígenas que são muitas. A lei ambiental brasileira ainda assegura  80% de proteção para floresta. O Brasil é o país que mais preserva tendo 27% de proteção em parques e reservas indígenas, 32% de reserva legal, 17% em APP isto equivale a 71% do país preservado, e mesmo assim em qualquer relatório de ONGs o Brasil é citado como vilão e não como exemplo, como deveria.

Em seu estudo citam que o cultivo da soja ocupa mais do que 7% do cerrado, como se isto fosse algo ruim, a soja transformou um dos solos mais pobres do mundo em prosperidade e ainda assim temos 60% do cerrado totalmente preservado. Em qual outro ecossistema se produz tanta riqueza e se preserva tanto como no cerrado brasileiro?

O estudo diz que a soja diminui empregos a cada ano, um contrassenso, afinal as legislações brasileiras e mundiais obrigam a mecanização do campo e claro reduz empregos. Vejam o caso da cana-de-açúcar que é obrigada a se mecanizar, e neste caso, uma máquina substitui dezenas de trabalhadores o que é natural. Fica claro que as ONGs parecem não saber o que querem e, além disso, o discurso é antagônico com a prática.

Como podemos ver, o que chamam de estudo traz na verdade um conteúdo pejorativo e uma constatação da ordem mundial sobre a consequência do capitalismo que naturalmente leva a busca por uma produção em escala. O estudo reflete a realidade das legislações cada vez mais populistas e deixa a desejar em termos de contribuições práticas e de acordo com a realidade mundial. Mais um estudo para justificar a arrecadação da ONG que de trabalho orientativo e construtivo para melhorar a produção agrícola mundial pouco tem feito, além da costumeira retórica.

Gostaria de ver um estudo desta ou outra ONG que apontasse o impacto da aplicação do Novo Código Florestal Brasileiro em todos os países do mundo, gostaria de ver como a China que ocupa com agricultura  58% do seu território que não é pequeno iria implantá-lo, os EUA a Europa, quero ver a Holanda, a Dinamarca se adequarem a legislação brasileira. Lanço o desafio a qualquer ONG fazer nosso Código Florestal ser mundial. Aqui quem não está adequado está consciente e está buscando se adequar e tem como fazer. Nestes países isto é possível? Ou somente os certos continuarão a ser condenados?

*Glauber Silveira – Presidente da Aprosoja BR

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